Outro desabafo pessoal demais para ser postado - e Nirvana

5/20/2017 08:38:00 PM

Em algum lugar entre esses dois últimos anos, eu me perdi. Completamente.

Desde criança, sempre fui uma pessoa artística, criativa, escrevendo, desenhando, inventando, atuando para lá e para cá, assistindo milhares de filmes, sendo groupie, Potterhead, customizando roupas, sonhando.

Talvez isso tenha acontecido quando me mudei para São Paulo, comecei a ganhar um salário alto pra caralho - para minha idade - porém num emprego que sugava minhas energias de todas as formas possíveis.

Fiquei frustrada, minhas doenças psicológicas se acentuaram, e o pior de tudo: acomodada. Essa talvez tenha sido a coisa mais "cruel" que aconteceu comigo. Logo eu, merecedora do mundo, corajosa, independente, aceitei que nem todos os sonhos foram feitos para serem realizados.

Eu me vi numa tristeza sem fim, cada vez pior, cada vez guardando mais para mim, tudo, sobre todos.

O emprego merda me fez desenvolver um consumismo desenfreado, onde comprar era minha maior fonte de prazer - vicio que encarnou em mim até hoje: a sensação de comprar, a experiência, é relaxante, excitante, prazerosa, me passa a sensação de controle.

Troquei de emprego, arrumei um bem legal. Meus problemas poderiam sumir ali se eu não tivesse tanto medo de perde-lo, alinhado ao fato de estar longe de casa, das minhas amigas, vendo meu maravilhoso relacionamento cair na rotina, perdendo a pessoa que eu mais amei nessa vida, minha avó e agora esse inferno que é a auto-escola (4x reprovada).

Eu sempre me achei feia e desinteressante. Incapaz, burra, jamais.

Mas faz 1 ano e meio desde que li um livro pela última vez.

Ganhei dinheiro, tempo, perdi o dinheiro comprando coisas que poderiam me deixar bonita, coisas que traziam felicidade momentânea. Se eu estou triste, gasto. Se me sinto ansiosa, gasto. Se estou puta da vida, gasto. E vivo nesse looping eterno a ponto de estar um salário negativado sem me importar, porque quando eu compro, eu me acalmo. Mas isso não é sobre meu consumismo.

Continuando, nunca mais li um livro. Nunca mais atuei, nunca mais pintei, assistir filme? Só no cinema ou com alguém. Sozinha entro em pânico, e vou falar com alguém enquanto assisto.

Como disse, ganhei dinheiro, tempo. Me cuidei, fiquei bonita - em foto - pessoalmente, ainda sou a mesma merda com cara de nova rica (sem a riqueza).

Por fora eu parecia perfeita: trabalho maravilhoso, beleza, dinheiro, amor. Por dentro, eu não sentia nada além de vazio; uma negatividade incomum, vontade de zero de fazer qualquer coisa. Eu não sentia preguiça, eu só não CONSEGUIA fazer nada, a ponto de precisar de todo um debate interno me obrigando a sair do quarto, porque o mundo lá fora parece - e é - muito cruel. Tudo parecia exigir muito de uma pessoa inútil demais.

Horas preciosas jogas num lixo chamado "Facebook". Meus demônios internos me consumindo mais a cada dia. Não é tristeza, não é ansiedade. Não é nada. Eu nem sei o que faz eu ter vontade de ganhar o mundo num dia e no outro estudar jeitos de deixar esse mundo.

Sempre curti Nirvana, leia-se: "sempre curti Smells Like Teen Spirit, Come As You Are e achei o Kurt Cobain gato para caralho". Mas aí assisti Montage of Heck. Eu não repito filme, mas esse assisti 3x numa semana. Uma coisa levou a outra, como nos velhos tempos, onde eu me interessava pelo filme e pesquisava sobre. E porra, como Nirvana tem me ajudado. Ironicamente, a depressão envolvida na banda me fez sentir algo além de vazio. Foi como se pela primeira vez, na minha vida inteira, eu fosse compreendida.



Tenho escutado Nirvana o dia inteiro, todos os dias, há 1 mês; comprei camiseta, troquei meu wallpaper. Poser? Jamais. Todo amor começa de algum lugar.

Essa semana, eu li um livro. Eu escrevi um roteiro. Eu tive uma idade de desenho, eu peguei minhas canetas novas e bonitas no fundo da gaveta, peguei uma camiseta branca sem pensar no "mas é nova, vai estragar" e customizei.

Depois de dois anos caminhando no escuro, sentindo nada além da vontade habitual de morrer, sendo indiferente (ou ansiosa) a tudo, eu senti como se minha criatividade estivesse de volta. Pela primeira vez em anos, eu me sinto bem. Não totalmente feliz, minha auto estima ainda é tão negativa quanto minha atual conta bancária. Mas o suficiente para pensar que tudo tem seu lado bom, e que qualquer coisa boa é possível se a gente quiser.

Valeu, Nirvana. Valeu quem leu até o fim.

Agora eu preciso sair, preciso terminar de decorar meu caderno.

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